Sono profundo

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Eu tive um mandarim, chamava-se lingrinhas. Ele tinha mais confiança com o meu pai. Era o meu pai que lhe dava todos os dias os bons dias, abria e fechava os estores da sala para ele apanhar o seu precioso sol e balançar de um lado para o outro de alegria. O meu pai falava todos os dias para ele, e a sua presença não o deixava stressado nem amedrontado, apesar de tudo, já o via como amigo! Olhava para ele respondendo sempre que sim, não sabendo o que o lingrinhas falava, para não se sentir sozinho naquilo que só ele sabia o que dizia. Anunciava a nossa chegada a casa cantando de alegria, balançando de um lado para o outro, como também cantava quando saíssemos. Dizia o meu pai quando saíamos: “Lingrinhas, toma conta da casa!” e dizia eu quando chegávamos: “iiii, que alegria!” Sabia pedir água, que apesar de a ter sempre cheia na pia, queria os seus direitos como pássaro, água sempre fresca. Pendurava-se na pia da água e saía, voltando de novo a pendurar-se lá, para nos chamar a atenção até conseguir o seu objetivo de nos fazer ver o que ele queria. Tomava os seus banhos no Verão nessa mesma pia, como era engraçado ver aquilo. Cantava todas as tardes, e por vezes tinha os chamados 5 minutos diários, fazendo-me ir ter com ele e falar ” então o que se passa?” A minha presença e o que eu lhe dizia fazia-o acalmar-se e continuar a cantar da forma normal. Cheguei eu e o meu pai a ver de quem é que ele mais gostava, e quando o meu pai se aproximava, ele mantinha-se calmo no mesmo sítio piando pouco e olhando para ele, quando era a minha vez de me aproximar, ele fazia as maiores algazarras. Era um pássaro que apesar de pensarem que não, tinha afinidades e amizades, mesmo sendo um simples pássaro. Ambos reparamos que um dia antes de falecer, enroscou-se para dormir, mas nenhum de nós comentou sobre isso, pensamos que apenas queria dormir, embora nunca o tenhamos visto a fazer aquilo ainda de dia. O meu pai, no último dia de vida do lingrinhas, fez o que sempre fez durante quase 3 anos de companhia com ele. Mais uma vez abriu os estores da sala de manha para ir trabalhar e desejou-lhe os bons dias. Foi trabalhar, e nesse dia nunca almoça em casa, mas veio almoçar, porque tinha uma surpresa para mim. Chegou à beira dele, mas não o viu sentado como sempre no seu suporte. E assim adormeceu, num sono profundo “Estou mesmo triste, eu falava todos os dias com ele” “O lingrinhas é insubstituível” – Pai
Fotografia, após a sua morte. 30/11/2018
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O gesto de dar

Histórias de vida

Penso muitas vezes nisto..

Dar o que se tem, sem nada ter. É esta uma das histórias que tenho para contar do meu pai. Nasceu em Portugal e foi viver para a Venezuela durante 10 anos, há 30 anos atrás.

O país na altura tinha igualmente a miséria que hoje existe, mas em menos intensidade. Assaltos existiam a toda a hora, tendo sido assaltado por duas vezes, uma vez sozinho em casa, e outra vez na rua, onde nesse último tinha o equivalente a cêntimos no bolso, mas até isso foi roubado. Os assaltantes tinham ódio a todos os estrangeiros e eram frequentemente mortos, tendo ele tido a sorte de não ter sido vítima de homicídio derivado ao seu grande sotaque Venezuelano, pois não sabia falar Português. No outro assalto, havia saído de casa e levado os seus trocos no bolso para ir comprar o seu gelado favorito de infância, que hoje são aqueles gelados super económicos com gelo e corante. Sendo assim, voltou para casa sem o seu gelado, por ter sido assaltado em plena na rua, tendo sido roubado o pouquíssimo dinheiro que tinha. Como seriam as pessoas capazes de assaltar um criança com uns trocos no bolso?

O meu pai tinha um amigo negro, o seu melhor amigo. Comia apenas arroz todos os dias. Era um caso do lado negro da Venezuela, fora da riqueza também existente igualmente nos país.

Estava prestes a ganhar dupla nacionalidade mas voltou a Portugal com 10 anos de idade, no dia da morte da sua avó.

É uma grande emoção para mim contar aqui o que aconteceu com a partida do meu pai para a Venezuela. O seu amigo, que nada tinha, deu-lhe o único jogo que tinha, para o meu pai o recordar.

Quem sabe a vida dará voltas e eu também, um dia, poderei ter a sorte de conhecer e ver o reencontro com aquela criança, que agora é um homem, de tão grande coração.

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A Concertina

Histórias de vida

Passo todos os dias por uma concertina aqui no Porto. A rua das flores está coberta de música a toda a hora. Guitarras, vozes roucas, violinos, temos uma imensa opção de atrações visuais, mas nenhuma me chama mais a atenção do que a concertina. Este tão português instrumento situa-se na rua das flores a ouvir-se soar todos os dias, a viver lá, a dormir lá… faça chuva, faça sol. Quem a toca chama-se Pedro, e apresenta-se sempre sentado, a tocar com um olhar triste e cansado, não digo cansado da vida, mas cansado da sua situação. Toca curvado para ela, olhando sempre para o chão. A concertina não é de algum modo nova, acredito que os anos que ela aparenta ter equivale aos anos que o seu dono esteja na rua a sobreviver. O desgaste do seu instrumento é deveras triste, aparenta-se roto por todos os lados, apenas com uma média 5 teclas que restam, mas mesmo assim toca música, a mesma música todos os dias, os dias inteiros. É assim a vida deste senhor, monótona, na rua ao frio, à fome, apenas com a sua concertina para chamar a atenção aos demais para poderem lá deixar as suas esmolas e assim ter dinheiro para poder comer. Se chover, encosta-se a uma casa para não parar de tocar, porque apesar da concertina estar velha, é a única coisa que ele tem. O seu olhar é vazio, nunca o vi diretamente, talvez porque já não consiga enguer a cabeça e poder olhar sem medos para quem passa ou talvez porque a tristeza de viver na rua não dê para olhar para mais para além do chão. Temos uma vida a viver na rua, um simbolo de luta, uma história que ninguém conhece.

A borboleta

Histórias de vida

Tinha eu 5/6 anos. Era um dia de Verão, os pássaros voavam com uma alegria contagiante e o céu estava com a cor do mar. Era mais um dia em que eu provavelmente estaria a brincar com uns legos ou plasticina, porque, apesar de ser rapariga, eu não apreciava as barbies nem bonecos para meninas. Eu tinha um cão, era o Buck, um boxer que foi o meu amigo de coração desde que nasci, que brincava comigo e me protegia sempre de pessoas conhecidas dos meus pais, que para ele, eram sempre inimigos da minha proteção. Nesse dia passei, como todos os outros dias, pela tigela de água dele que estava no pátio de casa, e vi lá um borboleta amarela esbranquiçada a boiar. O meu instinto de proteção dos animais fez com que me ajuelhá-se e com o dedo a retirá-se da água e a colocá-se no chão de cimento. Olhei para ela e vi que apesar de só a ter visto naquele momento, ela ainda dava sinais de vida. Pensaria eu que a borboleta ao bater as asas seguiria com o rumo dela. De repente, sem eu ter conseguido perceber como, pois tinha as asas molhadas, levantou voo e foi diretamente pousar no meu dedo indicador, fazendo-me uma venia, voando de seguida para a vida dela. O seu gesto de agradecimento fez-me ficar estática ao vê-la voar até não a conseguir ver mais. O bom que levamos da vida são as memórias, e esta memória, é das mais bonitas da minha infãncia.

Onde estás?

Histórias de vida

Ainda hoje sonhei contigo.

O sonho não passou mais do mesmo para além daquelas confusões estranhas que chego ao fim sem perceber realmente com o quê que sonhei, mas no meio daquela confusão, tu apareceste. Tudo o que sonho são filmes mudos e curiosamente no meio do silêncio eu falei-te “Porquê que foste tão cedo?”. Olhaste para mim e encolheste os ombros sem saber qual resposta poderia ser a certa. Eu acordei. Percebi que tinha sido um sonho, embora não tivesse sido a tua cara que eu vi nele, eu sei que me estava a referir a ti, porque eu penso nos meus próprios sonhos sem falar alto. Na verdade eu nunca te conheci, nem nunca te vi. Sinto a tua falta, sem alguma vez ter sentido a tua presença.

Queria tanto poder ter-te conhecido!

Tantas histórias da tua vida me poderias ter contado sentada ao sofá e eu a ouvir-te como se estivesse a aprender uma lição de vida! Tanta companhia podia ter tido e tanto me podias ter ensinado! Tantas vezes me podias ter dito a chegar da escola o que típicamente uma avó diz “Já lanchaste? Ainda não comeste nada?” e eu responderia “Não vó obrigada, já sabes que não sou de comer muito”.

Onde estás?

Estarás neste momento com a tua cabeça pousada no meu ombro a ler o que te escrevo?

Estarás a olhar para mim e a ver o quão a tua neta te queria por perto?

Sabes vó, queria me visses a cantar! Queria estar em cima do palco e ver que me estavas a aplaudir orgulhosamente. Espero que, embora não fisicamente, faças parte do público que me vê a atuar. Quero-te sempre lá presente, faz isso por mim.

Partiste cedo demais, não me viste a nascer nem a crescer.

Tenho saudades tuas, sem nunca te ter conhecido.

Afinal o que significa?

Reflexões

Amor…uma palavra e um sentimento tão difícil de entender e explicar. Talvez porque apenas mereça ser sentido e não decifrado, talvez por natureza não haver definição para essa palavra. Quem o sente ou sentiu alguma vez, provavelmente não trará de lá uma boa experiência. É um misto de emoções: felicidade, tristeza, adrenalina, nervosismo, emoções essas capazes de existir num só dia ou momento. É mais do que uma amizade, por muito que essa amizade seja forte há amor, mas não é esse amor que me refiro. Não é apenas pensar no quão alguém é importante na nossa vida e nos faz falta, porque isso acontece nas amizades. Não considero felizardos aqueles que já experienciaram este sentimento, muito pelo contrário. Acredito que mais de metade das pessoas ainda não tiveram a oportunidade de vivenciar tudo isto. Amor não se limita a companheirismo e amizade, não é só isso que gera amor, de maneira alguma. Quem algum dia amou, sabe que nunca irá conseguir ter alguém, pela qual não sinta o mesmo que sentiu pela pessoa anterior, não irá conseguir ter alguém por mero companheirismo, amizade e carinho. Essa pessoa vai esperar, não para encontrar a pessoa certa, mas sim encontrar a pessoa que ama, por muito que não seja a certa.